Hopenhague
Postado em 2010-01-23 21:40:14 por admin. 0 comentários

Na última noite da COP-15, em Copenhague, a temperatura estava abaixo de zero. Mesmo assim milhares de pessoas fizeram uma vigília, ao ar livre, pelo sucesso desta importante conferência que dominou a cidade nas ultimas duas semanas.

Estavam ali adultos, jovens e crianças. Junto com eles um grande sentimento de esperança – o nome de Copenhague chegou a ser alterado informalmente para “Hopenhague” (Hope significa esperança em inglês).

Qualquer pessoa que tenha acompanhado a COP-15 nos últimos dias perceberia o sentimento de urgência que tomou conta deste evento. Não existe dúvida de que o aquecimento global é um fato e que coloca em risco o futuro do planeta. Centenas de estudos foram apresentados provando que se não reagirmos agora, amanhã já será tarde demais. A mudança climática é real, ocorre nos dias atuais nas cidades onde vivemos.

Também chama a atenção o fato de que todas as soluções foram apresentadas em Copenhague. As ações necessárias são bem conhecidas e tem como principal base uma radical mudança nas matrizes enérgicas, principalmente por parte dos grandes produtores de co2. Soma-se a isso a grande mobilização para que os avanços se tornassem realidade e o apoio maciço da opinião pública para que tais soluções fossem adotadas.

Ou seja, tínhamos as soluções e a tecnologia necessária para que estas fossem implantadas – só faltava vontade política. Mas na teoria, isto também não seria problema. Afinal, 120 líderes mundiais estavam ali presentes. E todos eles repetiam a cada discurso e cada entrevista que o insucesso seria inaceitável.

Porém, quando a economia entra no meio de tudo isto, o entrave é previsível. A partir daí, o bom senso deixa de existir, valores e princípios são colocados de lado e surgem as infindáveis restrições. Falam das inúmeras dificuldades financeiras, mas na verdade o que falta é elencar prioridades. Não conseguem arrecadar bilhões para salvar o planeta, mas gastaram trilhões durante a recente crise econômica mundial.

A título de ilustração, a China argumenta que sua economia cresce em um intenso ritmo, tirando da miséria milhares de chineses. Até cogita assumir compromissos, mas não aceita o monitoramento das metas estabelecidas. Já os EUA adotam discurso parecido quando a economia vem à frente do meio ambiente: vivem mergulhados em uma enorme crise financeira e o foco está todo na geração de empregos. Pronto! Temos o cenário perfeito para que impere o impasse.

A COP-15 chega ao final liderada por um movimento de restrições, enquanto o fundamental seria compartilhar os recursos naturais de forma global. O tão esperado novo protocolo - algo com força de lei – parece ter sido barrado por visões divergentes entre países desenvolvidos e os em desenvolvimento. Ficou claro que para transformar estas diferentes visões em um desafio único será imprescindível desenvolver muita, muita confiança de todos os lados.

Ninguém ficou satisfeito com o resultado da COP-15. Apesar de vivermos uma crise no meio ambiente, o mais óbvio é que mundialmente vivemos uma crise de lideranças.  O resultado disto é um acordo “possível” que não é unânime, tampouco justo, ambicioso e muito menos ousado.

A esperança de Copenhague só será atingida quando a confiança for um valor em definitivo entre as nações. Para isto é necessário líderes capazes de entender o mundo como um todo, que enxerguem além do horizonte de seus próprios interesses. Que consigam romper fronteiras nacionais por um compromisso global. Tempo também será algo extremamente necessário. Pena que se tornou um luxo do qual não dispomos mais.

Thiago Peixoto é deputado estadual (PMDB) e economista. Escreve de Copenhague, onde acompanhou a COP-15 como observador.

Publicado em O Popular em 20/12/2009

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